Acabo de lembrar duma maçaroca que estava enterrada numa profundidade medonha, lá no fundinho da memória.
Quando tinha uns dezoito anos, e já sabia meia dúzia de acordes (muito mal tocados), certa vez fui à casa de um amigo.
Chegando lá, havia já um outro sujeito, mais velho que eu, na casa dos seus vinte e cinco anos, creio.
Sentamo-nos e ficamos conversando. A certa altura, reparei que havia um bonito violão na sala. Tarraxas douradas, coisa e tal. Encheu meus olhos. Encheu tanto, que – como você verá – esvaziou o cérebro que – egoísta – só queria saber de pegar aquele violão e “tocar”.
Não esperei muito. Sabia que meu amigo não tocava nem galinha no terreiro. Portanto o violão deveria ser do cara que estava lá. Fui direto ao assunto: “posso tocar um pouco no teu violão?”. O sujeito respondeu que sim.
Catei o bicho e saí mandando brasa. Uma beleza de instrumento. O meu violão comparado com aquele, não servia nem como raquete de frescobol.
O meu amigo que – é claro – conhecia tanto a mim como o outro sujeito, ficou quieto, o indecente. Os dois deleitando-se com o meu “concerto violonístico-vocal”.
Umas quantas músiquinhas mal-tocadas e pela metade depois, meu amigo avisa que é hora de parar. Eu – um grande idiota – mando: “por quê?”.
Sabe porque eu tinha que parar? Simplesmente porque eu estava atrasando uma sessão de gravação de violão. E sabem quem ia tocar? Aquele VIOLONISTA PROFISSIONAL que ali estava na casa de meu amigo.
Um pouco mais tarde, vim a saber que aquele cara tocava guitarra e violão profissionalmente, para diversos artistas famosos.
E ninguém me avisa!!! Se eu ao menos tivesse tido o bom-senso de pedir pro cara tocar alguma coisa! Mas não. Eu tinha que “tocar”.
As porcarias que eu tinha “tocado” não me saiam da cabeça. Putz! Aquela música que eu só sabia o refrão! Toquei. Ai, caramba! Aquela que só sei metade da letra! Toquei. Mamãe, socorro! Eu não toquei nada! Só passei vergonha.
Nota do idiota – desde aquele dia – e até os dias de hoje – antes de começar a tocar num lugar onde há gente desconhecida, pergunto: alguém quer tocar? Dá certo, rapaz!
O sujeito pegou o violão sem dizer nada. Afinou o instrumento de uma maneira que serviu apenas para acabar de esbagaçar o meu ego que, àquela altura, foi dar uma voltinha, deixando-me ali sozinho para assimilar a humilhação.
Meu amigo prepara o gravador. O sujeito dá uma ensaiada. Uns quinze segundos de ensaio dele me deram uma vontade bastante acentuada de bater em minha própria cabeça com um pau de macarrão. Um cabo de picareta seria mais apropriado. Outra opção seria arrancar todos os dentes sem anestesia…
REC. Meu amigo acionou o botão do gravador. O cara começou a tocar. Em menos de um minuto meus olhos encheram-se de água. Meu amigo pergunta: “ficou emocionado?”.
- Não – disse eu – é raiva mesmo…




Rererere
Eu fico imaginando a sua cara mano! Quem era o cara?
Rapaz, tenho certeza que me mesmo me conhecendo como você conhece, não pode imaginar a cara. Porque ela não estava à vista. Virei um avestruz na hora e enfiei ela num buraco. Não dá pra mencionar o nome do artista, mas o meu amigo era o Jorge. Jorjão, cadê você, bicho?